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A vida com arte A Barca do conhecimento
(Publicado no Jornal Oficina do curso de Jornalismo do UNILESTE – CENTRO UNIVERSITÁRIO DO LESTE DE MINAS GERAIS – Homenagem ao Profº Dr.Leonardo Francisco Soares)
Naquele dia, a aldeia viveu mais uma de suas rotinas. Os pescadores já haviam amarrado seus barcos e voltavam para casa. Os mercadores fechavam seus comércios e o cheiro de sopa de carne com legumes anunciava o jantar. O sol se punha por detrás das montanhas quando se instalou um frenesi nas ruas. Ele chegou! – o encouraçado despontava na linha do horizonte e aproximava-se rapidamente. Já era noite quando a gigantesca embarcação aportou na pequena cidade, tornando-a ainda menor. O povo ficou à espera por várias horas, na expectativa de ver o recém-chegado, mas não logrou êxito. Ninguém no convés; onde estaria a tripulação? Como teria conseguido transpor os corais em curvas acentuadas em um navio sem marujos? O enigma se manteve até a manhã do dia seguinte quando, repentinamente, pode-se ouvir por toda a cidade uma suave melodia, um adágio que envolvia os corpos e as mentes, paralisando-os. Os batimentos cardíacos aceleraram-se descompassando a respiração. O vento, mais forte que o normal, acariciava os campos de trigo que retribuíram com um surpreendente balé. Então, alguém alertou: - Vejam! Lá está ele! – a agitação se fez. Todos se atropelaram para conseguir o melhor ângulo. Ele surgiu na portinhola, caminhou até a proa e cumprimentou a todos, sorrindo. Tão logo pisou em terra firme, iniciou seu discurso praticamente incompreensível para a maioria das pessoas, deixando-as confusas e apreensivas. Mas, a brandura com ele se expressava apaziguou as aflições. Demonstrou saber que tudo tinha seu tempo e ele não tinha pressa. Os dias correram e as novidades vieram em torrentes. As palavras do mago envolviam, cada vez mais, o pensamento dos nativos. Falou de coisas que, até então, não se cogitava. Sons, ritmos e imagens ininteligíveis passaram a ter novas leituras. Suas idéias e conhecimento os fascinavam. Numa tarde de sol, o visitante ergueu as mãos para os céus e proferiu algumas palavras mágicas: - Griffith, Chaplin, play! – Iniciou-se um eclipse do sol com a lua e todo o lugar foi inundado por completa escuridão. Todos olhavam para cima, atônitos. Naquele momento, abriu-se uma tela de quilômetros de extensão, de onde vinha uma luz fantástica. Nela, podia-se acompanhar contínuas cenas mágicas. Alguns não as suportaram e caíram em sono profundo. Outros ficaram boquiabertos, devorando cada segundo. Entre aqueles que adormeceram, alguns despertaram após serem atingidos levemente por bolinhas brilhantes, atiradas pelo mago. O espetáculo parecia despertar sentidos nunca experimentados com tamanha intensidade: surpresa, medo e coragem. A experiência se repetiu por mais alguns dias. Não demorou muito para que os efeitos daquele deslumbramento se manifestassem. Nasceu uma nova aldeia que passou a se desenvolver mais rapidamente. Projetos inovadores foram postos em prática. Novas idéias foram surgindo. As pessoas começaram a enxergar o que havia por detrás das cenas da grande tela. Perceberam a cor, a emoção e a força presentes nas projeções em preto e branco. Descobriram que os sentimentos mais belos e intensos não dependiam do som das palavras para serem expressos. Assim, aguçaram a sensibilidade e passaram a ler olhos, a ouvir lágrimas, a beber sorrisos. Despertaram para a sensibilidade que tinham e se tornaram mais ricos. Mas, para grande frustração de seus discípulos, o mago recebeu a mensagem telepática de que deveria se ausentar. Outra aldeia precisava dele. Então, ajuntou suas caixas fascinantes, reuniu os aldeões no diminuto porto e disse-lhes: - Vocês não são mais pequeninos. Quando terminou de falar, levitou até a altura do encouraçado, visualizou toda a aldeia num giro panorâmico, embarcou e partiu.
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