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A vida com arte
Meu amor meu Morgana Valente - 26/01/2008
Existe em mim um amor que é meu. Ele me orienta e consola nos momentos em que me sinto só, triste ou aflita neste planeta alucinado e febril. Ai de mim se não fosse ele. Cada um sente o mundo à sua maneira. Por minha vez, aquilo que grita e me assusta é a dor que existe nele, não porque eu possa ser doente ou masoquista, mas porque sofro diretamente os seus reflexos. Quando me perguntam de que forma esta inquietação me atinge, respondo: Eu convivo diariamente com inúmeras pessoas e me dou ao cuidado de olhar sinceramente para elas. Basta olhá-las atentamente, ler os olhos que cruzam com os meus, observar o jeito de se aproximarem, a altura das cabeças. Assim como vejo leveza, tranqüilidade e alegria, eu também posso ver marcas sombrias nos olhares tristes, nos sorrisos forçados, no medo e na insegurança. De onde virá tudo isso? Fica a impressão de termos voltado para um estado de espírito medieval em que reina a sensação de vazio e vulnerabilidade. A pior parte em tudo isso é não ver muita preocupação com as conseqüências das atitudes tomadas pelas pessoas. Falando sobre relacionamentos afetivos, tenho a impressão de que a sofreguidão, a sensação de estar desprotegido e carente neste mundo consumista e antropofágico, tem levado muita gente a comportamentos egoístas e até mesmo libertinos numa busca sôfrega pelo alívio da angústia. Porém, tão logo ocorre o êxtase, tudo fatalmente volta como era antes. Esquecemos que todos os atos individualistas têm uma reação posterior destrutiva como a decepção, a sensação de vazio evidenciando uma vida tratada com descuido. A dor parece nascer daí. O individualismo, a intolerância, a falta de disposição para o cultivo paciente de relações maduras, a praticidade moderna em “descartar” pessoas tem repercutido amargamente. Todos nós ansiamos por um amor que nos alimente, mas poucos se dispõem ao trabalho e renúncia que isso significa. Vemos os relacionamentos assolados por dúvidas, desencontros, enganos e frustrações. Existe um cão rosnando debaixo de cada cama... Vemos o melhor que somos, o melhor que podemos dar de nós literalmente atirados em lixeiras, traídos pela incapacidade dos outros de enxergarem a nossa alma e a si mesmos. Não há mais possibilidade de confiança? Tudo está tão vulnerável à libido, tão prático que as pessoas se trocam frivolamente sem conhecerem sensações mais intensas de cumplicidade? Não há mais tempo para isso? Antigamente, quando a liberdade sexual ainda era um desejo proibido, o tempo de namoro e noivado que precediam a lua de mel proporcionava o prazo necessário para que homens e mulheres se conhecessem mais profundamente, estabelecessem vínculos, confirmassem laços afetivos e projetos de vida... Hoje, bom ou mau, felizmente para uns ou infelizmente para outros, os relacionamentos começam pelo final. Magoa-me esta praticidade moderna que tem banalizado os sentimentos tornando os nossos corpos, meros objetos de prazer furtivo. Choca-me a frieza das posturas volúveis e instáveis capazes de gerar a destruição emocional de tantas vítimas ingênuas e descuidadas. Pergunto: E a nossa inteligência e criatividade, a fração quase divina capaz de nos tornar verdadeiras estrelas na vida de alguém? E a transparência, a sensatez, a convicção do verdadeiro “sim” como objetivo de vida que uma vez acertado nos torna gigantes, aptos á prosperidade, ao crescimento em outras áreas? Parceria, cumplicidade... O que se tem feito de tudo isso? Eis a questão, a causa da dor nos olhares e nos passos... Estamos dando um tratamento muito irresponsável ás nossas pessoas por causa da preguiça, do egoísmo e da incompetência moral. Abrimos mão da compensação própria das relações sólidas para vivermos a aspereza e efemeridade dos instintos. Violentamos e somos violentados todos os dias. Talvez, estejamos vivendo mais uma transição dos valores humanos no ciclo evolutivo da nossa história. Talvez, estejamos colhendo o caos sentimental fruto do nosso espírito ainda primitivo. Tomara que por meio de tudo isso, gerações vindouras tenham o insight necessário para a opção de maneiras mais inteligentes de amar na construção de um futuro mais humano, lúcido, inteligente e pleno. Enquanto convivo com esta realidade nada feliz, me apego aos meus valores que me protegem. Construo á minha volta o mundo harmonioso que desejo na medida do possível, e me alimento deste amor que me habita, pois é o mais confiável que existe.
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Belo Horizonte - MG - Brasil - 2008