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A vida com arte
Obrigado, meu Deus!
(Premiado: 1º Lugar – Concurso literário nacional promovido pela APEMT – ASSOCIAÇÃO DOS ESCRITORES DO MUNICÍPIO DE TIMÓTEO – MG, 1993)
O trem corria nos trilhos como fazia diariamente, mas naquele dia, algo me fazia acreditar que estava mais lento e por acaso mais cheio também. Pela décima ou décima primeira vez, abri o envelope e conferi a ficha de inscrição para o teste na empreiteira, a carteira de trabalho, a de identidade, a de CPF, os atestados de saúde e de bons antecedentes. Tudo o que eu era estava dentro de um envelope. Ri sozinho por causa da ironia da vida por termos de ser catalogados com números de série para existirmos. Absurdo! Olhei os rostos que ocupavam o mesmo vagão que eu. Não precisei ser adivinho para ler em suas faces, os vestígios da lida agressiva, da carência de tudo que as marcavam. Minhas mãos suavam e percebi o quando estava nervoso. Faria um teste candidatando-me a uma vaga numa empreiteira que prestava serviços de manutenção mecânica numa usina de aço. O nervosismo era óbvio, afinal encontrava-me desempregado há vários meses, as reservas e o seguro desemprego já estavam no fim. Eu simplesmente tinha que conseguir aquela vaga. Maria já estava de olhos fundos de tanto costurar e fazer doces para fora. Os meninos precisando de calçados, roupas e remédios, sem contar que o aluguel subira e Maria estava para dar a luz novamente. Aqueles pensamentos teimavam em me tirar o sono, a fome e a alegria e somente a fé em Deus me dava forças. Perguntei as horas a um cidadão, pois para variar, o meu relógio havia parado. Ainda faltava mais de uma hora para o horário do exame. O percurso do trem duraria mais ou menos vinte e cinco minutos. Num galope eu cruzaria o bairro das Mercês e chegaria à firma com um bom crédito. Reparei uma mulher com lenço na cabeça, sacola na mão e uma barriga que me lembrava Maria. Mulheres lutadoras, talvez mais constituídas de coragem que muitos homens. De repente, percebi o quanto estava filosófico. A emoção já estava á flor da pele. Oh! Meu Deus! E como precisava daquele emprego... Reconhecendo o trecho concluí que, com mais 03 paradas chegaria a minha vez de descer. Olhei novamente para a mulher de lenço na cabeça e algo me chamou a atenção. Os traços que antes denunciavam uma vida sofrida agora falavam de dor: Dor... Barriga... Criança. Será que aquele rebento pretendia nascer ali, naquela hora? Por um momento, observei-a fixamente. Ela não se contendo me fez um apelo: - Pelo amor de Deus, me ajuda moço? Acho que vou parir agora... O conflito se estabeleceu dentro de mim. Como poderia ajudá-la se na segunda estação teria de descer? A mulher agachou-se. As águas fluíam pelo chão. - Alguém aqui poderia levar esta mulher ao hospital? Os que respondiam ficavam entre a vontade de ajudar e o receio de se atrasarem para o serviço. Todos tinham algo mais importante a fazer do que amparar aquela criança que logo estaria entre os de sua espécie. Em questão de segundos eu teria que decidir entre fazer aquele teste e ter a chance de pagar o aluguel, de descansar Maria e de atender as necessidades dos meus filhos para carregar aquela mulher para o hospital. O trem parou na penúltima estação. Cadê a polícia que vivia rondando por ali e que naquela hora, justo naquela hora não estava? Eu não podia perder o teste, eu... O trem entrou em movimento outra vez. A mulher chorava e segurava o meio das pernas como se isso impedisse o momento certo do filho nascer. Encarei as pessoas ao redor, todas olhando paralisadas, atônitas e só outra mulher apelando pela companheira. Uma revolta! Onde está a dignidade e a caridade humana no momento em que delas se carece? O que é mais importante? O horário de se pegar o serviço, um teste ou a parturiente sofrendo com seu filho prestes a nascer? Que pergunta cretina. Seres humanos cretinos somos nós! Num impulso peguei a agonizante nos braços e aguardei. Tão logo o trem parou – na minha parada, avancei contra os pedestres, subi as plataformas e cheguei á avenida. Carreguei a parturiente por várias quadras a gritar por alguém que a deixasse num hospital. Os motoristas de taxi perguntavam se eu pagaria a corrida ou se tinha algum lençol para cobrir o banco. Progressivamente, o pânico tomava conta de mim. Andei mais dois quarteirões entre pedestres, buzinas e fumaça e não consegui nada. Parei, olhei para o céu e pedi: - Meu Deus. Eu dei o meu teste por esta causa. Então, me ajude a terminar! Quando abaixei os olhos vi a 20 metros de nós uma rádio-patrulha e policiais que ao nos verem, abriram as portas e vieram me ajudar, acomodando a mulher logo em seguida. Antes que saíssem, pude ver nos olhos dela um misto de dor e gratidão. Estaquei naquela calçada como meio de me prover o descanso físico e o relaxamento emocional. Olhei para o envelope todo amassado e suspirei. Calculei que àquela hora, não precisaria correr ou talvez nem mesmo ir ao local do teste. Num mundo onde os homens só existem se são catalogados, qual empresário me daria nova chance acreditando na razão do meu atraso? Observei todo aquele movimento frenético ao meu redor e repentinamente me senti grande. Eu, José Luiz da Silva Filho, tinha dignidade, tinha valor... E não sabendo por que, comecei a caminhar na direção da empreiteira. E quanto mais me questionava se valeria a pena, mais apertava o passo. Confirmei no relógio da recepção quase meia hora de atraso. O secretário olhou-me e sorriu dizendo: - Pois não. Em que posso ajudá-lo? - É sobre o teste de hoje para a função de mecânico, eu... - Infelizmente, não vai ser possível. - Olhe, eu sei que estou muito atrasado, mas talvez haja outro dia... - Certamente que sim. Os exames de hoje foram adiados para amanhã porque o mecânico chefe que os aplicaria não pôde vir. O senhor deverá voltar no mesmo horário contido em sua ficha de inscrição. Perdi a voz e percorri lentamente um grande pedaço do caminho de volta como se estivesse anestesiado. Suspirei, sorri e chorei. E como se não existisse mais nada no mundo além de nós dois, disse-lhe em voz alta: - Obrigado, meu Deus! Obrigado!
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