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A vida com arte
Palavras aos navegantes Morgana Valente - 25/04/2005
Nas viagens pelos caminhos do mouse, encontro dezenas de pessoas que estão por lá por simplesmente estar - num vício cibernético. Outras estão para apenas conversar, encontrar um pouco de si mesmas nos outros e, assim, se alimentar - loucura? Algumas buscam experimentar sensações impossíveis de vivenciar estando sozinhas num quarto escuro e diminuto como este, num apartamento diminuto como os nossos neste planeta assustadoramente grande como o de ninguém. São incontáveis palavras, ás vezes vazias e desconexas - seus emissores parecem não acreditar que alguém de fato, às queira entender e são claros somente quando evidenciam sua condição de caçadores famintos. Noutras vezes, desfilam signos encharcados de sentimentos indecifráveis - como se eles denunciassem a descrença em diálogos frutíferos e me pergunto: O que são as palavras? O que as pessoas realmente querem? O que, verdadeiramente, buscamos? Somos todos iguais nesta noite? Eis um laboratório demasiadamente extenso. E eu, cientista amadora, passo o tempo dissecando almas sem pedir licença, me perdendo nelas num enlace simbiótico pouco saudável. Brincamos freneticamente com nossa imaginação - vestígios da infância? Idealizamos príncipes e princesas. Nós nos deixamos perder entre meias verdades e mentiras inteiras; fingimos não admitir a possibilidade de, em segundos, milhares de olhos castanhos ficarem azuis; dúzias de cinqüenta virarem vinte; centenas de falidos fantasiarem-se de banqueiros e dezenas de pedófilos se passarem por tios bonzinhos. Felizmente, para alívio geral da nação, há muita gente linda, trabalhadora e idealista se revelando gente linda, trabalhadora e idealista. Constato: Este navegar é um esporte radical de grande risco! Neste momento, Marina me lembra que chove lá fora e aqui... É, sempre falta algo, alguém, alguma coisa. Sempre há fome, sede, saudade de rir, medo de chorar, embora todos nós precisemos vazar um pouco de vez em quando para não explodirmos. E lateja a vontade de fechar os olhos e ser abraçado com verdadeiro afeto pela pessoa certa, vivendo mais intensamente do que o de costume, enxergando um pouco mais de brilho na vida. Utopia? E fatalmente refletimos tudo isso nas palavras, nos significantes nem sempre empregados com competência... Ah! Esta rotina seca, esta dificuldade áspera de se deixar amar e amar sem medo dos riscos. Riscos... O que nesta vida oferece garantias? Observo as frases na tela clara, no escuro do mundo, tanta gente que já desistiu de se arriscar por medo da dor. Por causa da incerteza, deveremos desistir? Particularmente, não quero morrer tão cedo... Pessoas e palavras... Ah, por que as coisas parecem ser tão simples e tão complicadas? Esse questionamento me faz romper a ionosfera. Mergulho na memória do deguste e investigo em meus livros devorados: Todos querem amor, paz, complementação. Navegar é preciso, mas que torre de Babel é esta entre multidões que falam o mesmo idioma? Acaso deveremos nos agregar a irmandades religiosas, esotéricas ou histéricas para conseguirmos falar e entender o idioma do mesmo idioma do mesmo idioma? Isto poderia significar alienação entre colônias distintas. E o resto do mundo e o todo? Nós não somos moluscos, somos? Perguntas infindáveis... Penso se a razão de vivermos neste desencontro possa estar na infância mal ouvida, mal vivida, mal... A maioria de nós não viveu o direito de ser criança e vem engatinhando anos a fio nesta busca: Ser ouvido... Quisera... E Zizi, misteriosamente, em meio a este turbilhão, sopra aos meus ouvidos como fada que é: “Guarda um beijo meu, o que for teu ninguém vai nunca mais tirar, quem sabe um dia tudo vai voltar, mas, agora é melhor deixar...” (Um beijo meu – Herbert Viana). É, vou continuar com Zizi, desconectar, fechar os olhos e desconectar. Quem sabe eu sonhe, e sonhando eu me reencontre, abrace e beije. Quem sabe amanhã eu volte, cante e lhe conte...
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