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A vida com arte
PAZ (Menção honrosa no 16º FESP - Festival Estadual de Poesia promovido pelo CLESI – CLUBE DOS ESCRITORES DE IPATINGA – Ipatinga – MG. 2001)
Um dia, olhando pela janela de um luxuoso escritório, um homem se perdeu em seus pensamentos. Cinqüenta anos haviam se passado. De um pequeno mercado, passou a proprietário de uma grande indústria de moda, extensa cadeia de lojas espalhadas por todo o país com filiais no exterior. À primeira vista, parecia ter vencido na vida, pois constituíra um grande império com honestidade e transparência. Com isso pôde estabilizar as finanças de toda a família e sua posteridade. As pessoas o tratavam com polido respeito. Umas com evidente simpatia, outras com um disfarçado despeito como abutres que aguardam o momento certo de devorar a carniça magnífica. Carniça. Por incrível que parecesse, sentia-se frustrado com algo que não sabia bem o que era. O médico alegou ser grande estresse e recomendou um cruzeiro marítimo. Provavelmente tantos anos numa vida agitada entre pontes aéreas, oscilações do mercado e os problemas burocráticos estavam tornando-o um homem cansado e infeliz. De repente, levantou-se de sua cadeira importada, cancelou todas as reuniões do dia, dispensou os guarda-costas, caminhou até seu carro e dirigiu para o interior rumo às montanhas. Algumas horas depois parou o carro, saiu e olhou á volta. As cores que antes lembravam concreto e fumaça, agora falavam de terra, mato e céu. Ele pôde ver no alto da colinha, um rebanho de cabras pastando e caminhou entre capim, árvores e arbustos, parando pouco distante dos animais. Sentou-se no chão, suspirou, cheirou o lugar, misto de terra úmida, mato e urina dos animais. Respirou aquilo como se fosse uma vacina contra a pressão que sentia no peito. O céu estava azul. Sorriu, chorou. Olhou ao redor à procura de algo que não sabia o que era. O mundo era grandioso, pensou. Até onde sua vista alcançava, sentia-se como uma folha seca solta ao vento. Folha seca... Seria ele apenas isso? – imaginou todos os seres angustiados se transformando em folhas secas num mundo destruído pela ganância e pelo descaso. Rios e mares usados como lixeiras, vales e montanhas eclodidos, florestas devastadas, animais extintos, ares poluídos e multidões famintas. Para que? Por quê? Este é o preço do progresso em si ou da incompetência em administrá-lo? A resposta era óbvia e descobrira uma das razões de sua melancolia. Subitamente, o homem se surpreendeu quando viu um menino de aproximadamente 08 anos de idade descendo os degraus rochosos da colina com a eficiência de um caprino. Os cabelos loiros e desalinhados brincavam ao vento e seus pés descalços pareciam flutuar sobre as pedras do trajeto até desaparecer num certo ponto. Seria uma visão? – questionou-se o homem não se atrevendo a deslocar-se um palmo dali temendo quebrar a magia do instante. Minutos depois, o menino voltava trazendo nos ombros um filhote desgarrado. Subia com a mesma destreza com que desceu, entoando uma melodia que devido á região de montanhas produzia em eco harmonioso inigualável nem pelo melhor órgão eletrônico do mundo. O menino o viu e fez que não. Tão logo foi colocado no chão, o animal correu para uma cabra de abundantes úberes. O menino assentou-se, e com uma tosca flauta de bambu emitiu sons ainda mais encantadores que aguçaram a sensibilidade do homem. A suavidade da música e a intensidade das emoções que sentia fizeram-no pensar no mundo e na raça humana. Deus não teria criado tanta beleza e com tanta perfeição para entregá-la nas mãos de incapazes e a prova estava ali, bem diante dos seus olhos. Aquele pequenino e frágil ser era responsável por um rebanho inteiro e sabia realizar seu trabalho com competência e capacidade de somar beleza à sua volta, pois conseguira emocionar o coração de um velho descrente. Quantos seres humanos maravilhosos como aquele existiriam no mundo? Centenas? Milhares? Ah, sim, milhares. Por que não? Diante da feliz conclusão, o homem não se sentiu mais descrente. Como poderia deixar de reconhecer a primazia da criação divina? O homem! Sim, ele acreditava no homem e na certeza de ele pode reverter todo o mal existente, bastando que assim o queira, começando em cada um na parcela que lhe cabe. O som da flauta varou o tempo até o final do entardecer. Depois, deixando o instrumento de lado, o garoto pôs-se a ordenhar com a precisão de um velho conhecedor da técnica. O homem o observava e ele, arredio como as pessoas simples do interior, olhava-o de soslaio. O velho percebia a plena tranqüilidade que lhe abrira o peito. Suas feições perderam o ar apreensivo, os sapatos já haviam sido tirados e curiosamente, a cadeira de capim não despertava saudades da outra importada. Então, reparou que o menino caminhava em sua direção trazendo uma caneca esmaltada com leite até as bordas e lhe ofereceu. O homem sorriu, aceitou e bebeu aquele alimento como se fosse um presente dos céus. Enquanto recebia a caneca de volta, o menino perguntou: - O senhor está perdido? O homem respondeu: - Não estou mais. Acabei de me encontrar.
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